quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Descaso






Considerando a originalidade humana quase nula, pegue uma escada. Coloque-a de frente para o seu armário, suba até o alto e diga o que vê. Alguns jogos de tabuleiro velhos, uma ou outra bola, uma peteca, seu pirocóptero que perdeu aos sete anos e pó, muito pó (estimo sinceramente que seja do tipo legalmente aceito, lê-se poeira). Enquanto neste momento você, ao recordar inúmeras lembranças em sua nostálgica imaginação, apresenta um rosto abobado e infantil, lembre-se, isto é o descaso.


O descaso pode ser também, imaterial, o descaso com um sentimento alheio, com o pensar do individuo social que difere do seu. A desvalorização da livre opinião do coletivo enquanto unidade, ou do ser, enquanto único; se é que me faço entender. As emoções humanas muitas vezes entram em conflito com a inteligência, o que faz com que tomemos atitudes movidas muitas vezes apenas por uma delas, visto que o ideal seria o balanceamento das duas.


Esse pequeno escrito é para apenas relatar a realidade das grandes cidades, mas principalmente, pedir desculpas pelo não só meu, mas também de meu companheiro de letras, por nosso descaso com nosso estimado Blog, de onde tiramos nosso pão de cada dia, material e intelectual, e onde conseguimos manter uma linha de comunicação direta com amigos e leitores; mais uma vez, perdoem-nos.



Post-Scriptum: Para mais um exemplo de descaso, vá a um hospital público.





Música da Semana – I Gotta Feeling (Black Eyed Peas)
Filme da Semana – “Besouro” (Gênero: Ação)
Frase da Semana – “D'abord il n'y a pas de gouvernements populaires. Gouverner, c'est mécontenter.” (Jacques Anatole François Thibault)
Imagem – Bagunça em um armário, no caso, o meu.


sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Crepúsculo - O retrato de uma juventude em declínio


. AVISO: Se você é fanaticamente cego pelo romance escrito por Stephenie Mayer, esse texto é Altamente Recomendável. Esse texto contém críticas fortes ao filme e aos seus fãs, mas o respeito pelo gosto é plenamente existente. A crítica é o ato de gostar. Gostar não tem problema nenhum. Tem gente que gosta de Pagode, não?

. Pois bem, essa semana todos os humanos normais foram pegos pelo "espetacular" lançamento do mais novo filme da série de livros sobre Vampiros que virou moda entre a juventude local, principalmente entre as meninas. Lua Nova estréia hoje nos cinemas brasileiros. Nessa sexta-feira dia 20. Uma pena não ter estreiado semana passada. Seria o melhor dia possível. A sexta-feira 13. Ou vampiros românticos não gostam de sexta-feira 13?

. O novo fenômeno cultural foi bastante parecido com os outros. Veio do nada, causou um choque, se instalou na sociedade e virou mania. Gostar de vampiros, comprar uma dentadura de vampiro e sujar a parte de baixo dos lábios com ketchup agora virou moda. E o sucesso é arrasador. Milhares de livros vendidos e salas de cinema cheias. Agora eu pergunto, por que estou falando disso?

. O que me fez despertar a vontade de escrever foi presenciar um fato alarmante ao ter uma conversa com uma boa pessoa. Ontem, ela falava sobre a estréia do novo filme da série. E falava com uma empolgação incrível. E ela deve ter mais de 25 anos. Até aí, "tudo bem". Tive misericórdia por sua alma, mas respeito o gosto das pessoas, o problema foi quando ela falou:
- Eu já comprei os ingressos pra mim e para minha filha. Acho que ela não conseguirá nem dormir direito de tanta ansiedade.

. Admito. Isso me espantou demais. Como algo produzido culturalmente pode deixar uma pobre pessoa sem dormir pela ansiedade produzida no dia que antecede sua estréia? Esse objeto produzido tem que ser algo estupendo criado por um gênio, no mínimo. E não é isso que acontece. Não, no caso de Lua Nova, ou se preferir Crepúsculo 2 - Vampiros em polvorosa.

. É evidente que histórias de seres mágicos e com poderes atrai a curiosidade do público. É fabuloso ir além de nosso pobre mundo de humanos sem poderes especiais. Não damos valor a termos braços, pernas e massa encefálica. Teríamos que pular muito alto, voar, ter super força e coisas do tipo. Pois isso é maravilhoso. Pois seríamos diferente. Seríamos Especiais. E ser especial é tudo que queremos. E todas as febres culturais se baseam nesse ingrediente especial. A arte da magia. Do mundo onde humanos não convivem apenas com humanos. E foi assim com Harry Potter. E foi assim com Senhor dos Anéis. Bruxos, elfos, orcs, magos e agora vampiros. O problema é: Onde isso tudo vai parar?

. Gnomos drogados na Suécia, talvez?

. A diferença gritante entre Crepúsculo e seus antecessores é notoriamente sua qualidade. Senhor dos Anéis é uma trilogia genial. Uma epopéia fantástica que produz uma própria mitologia que inventou o mundo dos RPGs e abalou todas as estruturas de histórias de fantasia. Por ser único. Por ser inovador. Já Harry Potter foi uma febre criada entre os jovens que em sua geração cresceram lendo uma história que ia sendo desenvolvida com o tempo. A relação idade-história é fato marcante e preponderante para o sucesso. A escrita dos livros foram evoluindo a cada um que era lançado. E seus leitores também, o que tornava sua história cada vez melhor. Cada vez mais adulta e sombria. Sem contar que seu roteiro em si é extremamente criativo, com personagens muito bem construídos. E tornou-se o que é. Agora, e o Crepúsculo?

. Crepúsculo é um mero enlatado americano que traz a soma de tudo que é pop, jogando em um liquidificador um roteiro inegavelmente romântico (o famoso bonitinho), um cenário jovem para as pessoas se identificarem e quererem estar no lugar e o mais importante... seres especiais fantasiosos que não existem, os Vampiros. Porém, não me espantaria se uma taxa das pessoas que gostam de Crepúsculo acreditem ferrenhamente na existência de vampiros como os do filme. Ah, e não esqueça do velho maniqueísmo de sempre entre o bem e o mau, fator essêncial nessa equação tão fácil de se visualizar.

. Admito que peguei o livro pra ler e também assisti o primeiro filme. Seria muito vazio e arrogante de minha parte fazer uma grande crítica sem ter fundamentos pra isso. Quem faz isso não tem a mínima noção do que é criticar. Primeiramente, o livro é um lixo. Roteiro bom. Escrita ruim. Narração fraca e nada chamativa, pelo menos pra mim. Mas é claro que o roteiro é interessante e faz as pessoas acompanharem, mas eu não consegui me prender. Não foi algo que me fez bem. Pra ler porcária, eu leio umas crônicas bastardas de política. E o filme? Bem. Eu só cito aquela cena onde o vampiro parece um carnavalesco-man todo purpurinado ao ter sua pele tocada por raios solares. Muito tosco. Porém, para muitos é bonitinho. Ok. Eu dispenso.

. O que me pergunto, é por que essa tendência em nossa juventude? Por que não se prender as fantasias delirantes de Dom Quixote e sua grande epopéia pelo amor? Por que não pegar a linda e magnânima história de O Pequeno Príncipe e se jogar em toda aquela imensidão fantasiosa envolta de pureza e amor? E isso é só pra citar os clássicos. Poderia falar de Dickens, Shakespeare, Saramago, entre outros. Eles são tão atuais. Escrevem tão bem. E de forma tão expressiva. Por quê? Por quê?

. Será que é preciso realmente pra todo sucesso novo ser algo cheio de clichês, sem nenhuma criatividade, seguindo a mesma fórmula de sempre para se criar uma febre juvenil? Eu não sei mais. Sem mais, queridos. Por hoje é só. Estou cansado. Ficam-se os questionamento.

. Por sinal, pra quem não sabe o que é, um Crepúsculo a claridade frouxa que precede a escuridão da noite ou a claridão do dia. Poeticamente, pode ser considerado como um período que precede o fim de algo, um período de declínio. E o único declínio que vejo é o de nossa juventude. Logo, por isso estamos presenciando esse Crepúsculo.

Música da Semana – Hotel California (The Eagles)
Filme da Semana – “Minhas adoráveis ex-namoradas” (Gênero: Comédia)
Frase da Semana – “É preciso cultura pra cuspir na estrutura” (Raul Seixas)
Imagem – Foto de um Crepúsculo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Minha Cidade.






Hoje acordei sem saber o que escrever, sem inspiração. Nostalgicamente lembrei-me do quanto deixei de viver em função do medo. O medo de criar, o medo de inovar, de tocar, sentir e dizer. Querendo ou não, vivo em uma cidade medrosa que sofre do mesmo mal de seus habitantes. Turistas vem e vão, balas ficam, incrustadas no peito do Rio de Janeiro. Pense na cor preta, pense agora na morte, facilmente associadas não? Reflita que, a cor preta, o qual imaginamos como seja “a cara do pós morte” (mesmo que momentaneamente), só existe devido a consciência de estar vivo.


Uma hora, caminha-se com amigos por uma praça onde crianças brincam, seus amigos gritam, estás morto meu companheiro, seu assassino? Qualquer um. Pode ser um policial, um assaltante, o padeiro, o pipoqueiro, uma criança no escorregador ou um de seus amigos; vai saber. Em minha cidade, bandidos andam pela rua, enquanto fico encarcerado atrás das grades de minha janela.


Aconteceu, há tempos, d’eu andar pela calçada, inconsciente do perigo e, um tiro atingir a parede ao meu lado, centímetros acima da minha cabeça. Sorte? Deus? Mira ruim? Prefiro ficar com os três, nesta terra de belezas e armas incomparáveis, é melhor todas as opções. Temos aqui, uma Faixa de Gaza, quem disse que é exclusividade do Oriente Médio?


Alguns leitores, agora, estão se identificando, outros, tendo pena e alguns jamais virão aqui. Afirmo com embasamento e orgulho, minha cidade é tudo isso, porém, não a troco por nada. Com suas praias, suas montanhas, seu povo e seu céu –ao que penso ser único no planeta- o Rio de Janeiro, desculpem-me o clichê, continua e continuará lindo; independentemente do que façam com ele.




Música da Semana –Templars (Ancient Rites)
Filme da Semana – “Cruzadas” (Gênero: Aventura)
Frase da Semana – “Das Leben ist wie ein Fahrrad. Man muß sich vorwärts bewegen, um das Gleichgewicht nicht zu verlieren.” (Albert Einstein)
Imagem – Rio de Janeiro – Cristo Redentor





Obrigado ao meu amigo Jacques, pela ajuda de Sábado.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A cidade apagou.



"A luz se foi e agora nada mais resta a não ser esperar por um novo sol, um novo tempo, nascido do mistério do tempo e do amor do homem pela luz".
Gore Vidal

. A cidade apagou. E não foi só aqui. Foi aí. Foi lá. Foi acolá. E não sei onde mais. Apenas apagou. Do nada. Apagou. A luz se foi. E tudo que estava iluminado não estava mais. Apagou. Assim. Sem mais nem menos. Com explicações plausíveis. Mas na hora ninguém entendeu. E até agora muita gente também não. Apagou. Foi piscando, piscando e piscando.... até que ficou bem fraca... e apagou.

. O que você estava fazendo? Era importante? Apagou. E como você ficou? Apagou também. E as memórias do momento, apagaram? Deixa pra lá, chega de questionamentos. Apagou e só. Não precisa ficar pensando e se explicando. Apagou ontem. Vai apagar amanhã? Não sei. E agora? Agora agora? Ou estou questionando se vai apagar amanhã e o que iremos fazer caso isso aconteça? Não sei. Apague isso também.

. No apagão ficaram beijos. E transas inesquecíveis. Aquela escondidinha, pros pais não verem. Mas a luz acabou. E a mãe veio com a vela ajudar o casal em pleno ato. No apagão ficaram choros. Choros tristes, de felicidade, infantis e tão adultos. Choramos pela morte. Choramos pela vida. Choramos pelo apagar. E choramos quando a luz voltou. Ou apenas dormimos. Não choramos, nem sorrimos. Foi e nem percebemos. Que idiotice. Ficar falando sobre o apagão. Mas afinal, onde você estava? Você. Você meu amor. Eu não consigo mais te achar. Te perdi em um apagão. Um apagão que veio muito antes desse apagão. Um apagão que te levou embora. E na escuridão de minha própria confusão, eu te perdi e a luz nunca mais voltou.

. E nada mais fez sentido. Dançar na escuridão, tocar o chão e sentir o infinito bailar por entre nossos dedos, cantar em sombras aconchegantes, brincar de fechar os olhos e ver nada mais do que já víamos com os olhos abertos. Foi assim. E pra sempre se foi um momento que nunca mais acenderá em nossas vidas. Quem riu, riu. Quem brigou, brigou. Quem não fez nada, só lamento.

. Deixa pra lá. As luzes voltaram. Estava calor. Pude ligar o ventilador. Achei interessante tomar banho a luz de velas. Meu corpo não é tão feio assim nas sombras. Pra falar a verdade, eu nem me lembro do apagão. Apaguei. Desde quando te perdi. E nada mais faz sentido.

. Não se percam. Apagões acontecem. Na vida e no amor. Mais aqueles que são de amor, nenhuma usina hidroelétrica, atômica, simbiótica ultra fodônica poderá trazer a luz de volta. Cuide-se. Dê a mão ao seu amor na escuridão. Diga com toda paixão que nunca irá abandoná-lo. Que sua voz seja o conforto e suas palavras os feixes de luz que rasgam a escuridão. Beije. E transforme trevas em esplendor.

Texto escrito ao longo de uma conversa com minha amiga Debbie. Obrigado pela companhia e inspiração, querida.


Música da Semana – You see me Crying (Aerosmith)
Filme da Semana – “Tartarugas podem voar” (Gênero: Drama)
Frase da Semana – "Duvidem de tudo. Encontrem sua própria luz." (Buda)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Individualismo







O que faz o ser, enquanto pensante, ser individualista? É errado pensar em si próprio antes de cogitar refletir sobre o coletivo? E incidir sobre o coletivo? A resposta não poderia ser outra, não. É instintivo de todos os animais a sobrevivência, não podendo ser diferente com o homem, temos o instinto de sobreviver, o individualismo no caráter mais puro da palavra.


É fato que egoísmo e individualismo em sua unidade primária de sentido são diferenciadas facilmente. Podemos dizer até que o pensar individual antes do social move o mundo; de que forma? Consideremos a sociedade apenas com seu bloco econômico maior, o Capitalismo. Eu, assalariado de baixa posição hierárquica na minha fictícia empresa, trabalho pensando unicamente em meu bem-estar, no máximo o da minha família básica. Não me importando para o futuro do meu chefe. Pois bem, assim como “eu”, existem milhares de pessoas fazendo o mesmo, os quais, felizes ou não geram o sustento de seus chefes, movem o mercado financeiro e produzem bens e serviços para o mercado direto; tudo por que pensam apenas em si.


O ser humano, enquanto inserido em sociedade, abre mão de certa parte de seu individualismo, até por que necessita do coletivismo do outro e, também, de resquícios do que podemos de chamar “individualismo coletivo”; para assim ter os meios de se aproximar do viver e se afastar do sobreviver. Penso eu, então, que o social e o coletivo, nada mais são do que uma complexa ramificação do individualismo, ou mais precisamente uma ramificação de diversos individualismos; entrelaçados numa cadeia quase irracional, tão irracional que chega até fazer sentido.


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Desculpem minha ausência ontem, porém o apagão me impediu de escrever. Ainda acho que Mãe Dináh acerta mais do que as previsões dadas pelo Ministro de Minas e Energia e o Diretor da ONS


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Música da Semana – In The Shadows (The Rasmus)
Filme da Semana – “Uma Mente Brilhante” (Gênero: Drama biográfico)
Frase da Semana – “Quanto aos homens, não é o que eles são que me interessa, mas o que eles podem se tornar.” (Jean-Paul Sartre)
Imagem – O Homem Vitruviano (Leonardo Da Vinci)